Por que você faz cinema?
Para que serve o cinema?
Duas perguntas e as ruínas do Cine Continental, abandonado em pleno Sertão da Paraíba, são as bases para UM FILME DE CINEMA feito com depoimentos de realizadores que procuram perpetuar a conversa entre as imagens que vemos e as que imaginamos.
O diretor Walter Carvalho descreve Filme de Cinema:
Nos meus encontros com os diretores com quem venho trabalhando e com outros colegas e amigos da profissão, estamos sempre falando de cinema de forma compulsiva. Conversamos muitas vezes como se não existisse outra coisa no mundo. Somos capazes de ficar um dia inteiro conversando sobre planos, sequências, roteiros, casos anedotas e imagens do cinema. São conversas extraordinárias e revelações espontâneas que, apesar do entusiasmo do momento, aos poucos vão se diluindo na memória.
Para não perdê-las pensei em filmar tais conversas e depois transformá-las em um filme sobre o próprio cinema, um filme de cinema. Assim as conversas não se perderão no tempo, estarão guardadas no celulóide, e poderão ser assistidas por grandes platéias.
Serão utilizados trechos dos filmes dos autores entrevistados (alguns já filmados como Hector Babenco, Julio Bressane e Andrew Wajda), principalmente planos que não foram usados durante a montagem. Os diretores explicam cada um a sua maneira, como é possível se apaixonar por um plano, muitas vezes belamente filmados, e ao mesmo tempo se vêm obrigados a abandoná-los, por razões que nem sempre se explicam. Motivos às vezes de grandes arrependimentos.
Ao mesmo tempo, faremos a ligação entre a magia do Cinema e toda a riqueza do imaginário da cultura popular, desde o cordel até a literatura, passando pela música e todas as manifestações da dramaturgia nordestina. “Filmes de Cinema” e imaginário popular estão profundamente ligados na memória cultural brasileira e nordestina. O cinema e a arte popular se misturam, mostrando o que podem fazer com a imaginação das pessoas.
Vamos resgatar personagens como o cantador repentista Cego Aderaldo que, em vida, apesar de cego, viajou pelo sertão nordestino com um velho projetor 16 mm, exibindo filmes para platéias sertanejas. Lembraremos também João Martins de Athayde, um dos maiores escritores/ editores, na história da literatura de cordel, que adaptou em forma de folheto o filme expressionista alemão O Estudante de Praga, numa curiosa parceria entre cinema e poesia popular.
Esta homenagem à magia da imagem em movimento é também um registro do desaparecimento das salas de exibição, tanto nas metrópoles quanto nas pequenas localidades do interior.
O mercado cinematográfico hoje se volta para um público de classe média urbana, de maior poder aquisitivo, e despreza as populações de baixa renda do interior. Os antigos cinemas de bairro vão aos poucos se transformando em igrejas evangélicas, supermercados e lojas de grande porte. Os cinemas dos shopping centers trouxeram certo conforto para as grandes platéias, mas por outro lado afastaram o público periférico das grandes cidades, que não tem acesso aos ingressos das salas de luxo.
O sucesso dos projetos culturais que exibem filmes em bairros ou praças públicas comprova que a falta de salas de cinema é um fato indiscutível. A ausência dos cinemas de bairro e das cidades do interior dificulta a formação de platéias, que fugiram para os programas de televisão, sobretudo para as telenovelas, onde se concentram as maiores audiências.
Embora a oferta de salas de exibição tenha diminuído nessas regiões remotas, a demanda pelo sonho, pela aventura e pelo encantamento proporcionado pelo cinema ainda é a mesma.