Um filme de cinema, de Walter Carvalho

 


Apresentação

“O cinema já nos era um incitante sem o qual não podíamos passar. Levávamos a semana discutindo as fitas, comentando os enredos. Corrigiam-se atitudes, emendavam-se situações, aprendiam-se mesuras da sociedade.  Havia mulheres tentadoras vestidas na última moda, bem diferentes das mulheres que víamos na vida.  Tudo era diferente naquelas existências.  Os homens tinham outros modos.  As mulheres saíam de casa sozinhas.  Viram uma, brigando com o marido, dizer-lhe com a maior simplicidade deste mundo: ‘Vou para a América!’, como Tia Maria diria: ‘Vou para o sítio do Seu Lucino’.  A gente daqueles lugares era mesmo de outro planeta”.

José Lins do Rego, Doidinho, 1933.

 


"Desafio meus contemporâneos a citarem a data de seu primeiro encontro com o cinema. Entrávamos às cegas num século sem tradições, que deveria distinguir-se dos outros por seus maus modos, e a nova arte, a arte plebéia, prefigurava nossa barbárie. Nascido num antro de bandoleiros, classificado como atração de parque de diversões, tinha maneiras popularescas que escandalizavam as pessoas sérias; era o entretenimento das mulheres e das crianças, nós adorávamos o cinema, minha mãe e eu, mas não pensávamos e nunca falávamos nele: e alguém fala do pão quando este não falta? Quando nos demos conta da sua existência, fazia tempo que tinha se tornado nossa necessidade principal”.

Jean-Paul Sartre, As Palavras, 1964.

 


As ruínas do Cine Continental, abandonado em pleno sertão nordestino, servem como base para um filme sobre o cinema, com depoimentos de fazedores de filmes (alguns já filmados, como Hector Babenco, Julio Bressane, Andrew Wajda, Beto Brant, Ken Loach, Ruy Guera, Karim Ainouz, Laís Bodansky)
com base nas perguntas:

Por que você faz cinema?
Para que serve o cinema?


São depoimentos em que os cineastas relatam suas experiências na vida e no cinema. Ao encontrar os diretores com os quais venho trabalhando e outros colegas e amigos da profissão, estamos sempre falando de cinema de forma compulsiva. Conversamos muitas vezes como se não existisse outra coisa no mundo. Somos capazes de ficar um dia inteiro conversando sobre planos, seqüências, roteiros, casos, anedotas e imagens do cinema. São curiosas conversas e revelações espontâneas que, apesar do entusiasmo do momento, aos poucos vão se diluindo na memória. Para não perdê-las, pensei em filmar tais conversas e depois transformá-las em um filme sobre o próprio cinema, um filme de cinema. Assim, esses diálogos não se perderão no tempo, estarão guardados no celulóide, e poderão ser assistidos por grandes platéias.


Utilizaremos trechos de filmes dos autores entrevistados, planos que não foram usados na montagem final desses filmes e de onde nasceu a idéia de Um filme de cinema.
Faremos uma montagem dessas sobras, que nada tem de comum entre si, criando um novo filme.
Os diretores explicarão cada um à sua maneira, como é possível se apaixonar por um ou mais planos, muitas vezes belamente filmados, e ao mesmo tempo ter de abandoná-los, por razões que nem sempre se explicam. Motivo, às vezes, de grandes arrependimentos.
Dentro dessa colcha de retalhos, o filme tentará encontrar uma possível história e uma lógica narrativa às avessas.
É curioso imaginar o desafio de como um plano não utilizado em Central do Brasil pode juntar-se a um plano de O ano em que meus pais saíram de férias, só para dar um exemplo.

Ao mesmo tempo, faremos a ligação entre a magia do cinema e toda a riqueza do imaginário da cultura popular, desde o cordel até a literatura, passando pela música e todas as manifestações da dramaturgia nordestina.  “Filmes de cinema” e imaginário popular estão profundamente ligados na memória cultural brasileira. O cinema e a arte popular se misturam, mostrando o que podem fazer com a imaginação das pessoas.  

Além dos cineastas supracitados, já filmamos com Ariano Suassuna, falando sobre as incríveis histórias de sua memória de menino nos cinemas das cidades do interior.  Temos a impagável história do filme de terror com Boris Karloff que ele viu na companhia de sua tia, no Cine Capitólio em Campina Grande, e o episódio da senhora católica que assistia todos os anos a velha “Paixão de Cristo” em preto-e-branco e revoltou-se quando esta foi substituída por uma produção hollywoodiana em cores – porque ela entendia que a história da Paixão em preto-e-branco havia sido filmada na época do Cristo de verdade.

Vamos resgatar personagens como o cantador repentista Cego Aderaldo que, em vida, apesar de cego, viajou pelo sertão nordestino com um velho projetor em 16 mm, exibindo filmes para as platéias sertanejas.

Lembraremos também João Martins de Athayde (1880-1959), um dos maiores poetas/editores da história da literatura de cordel, que adaptou ou pelo menos se inspirou, recriando em forma de folheto o filme expressionista alemão O Estudante de Praga, numa curiosa parceria entre cinema e poesia popular.  

 

 
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