O Beduíno, de Julio Bressane

 


Conceito do longa metragem

Beduíno: povo nômade que vive nos desertos do Oriente Médio e do norte da África. De acordo com o dicionário Houaiss, o termo ‘beduíno’ é derivado do árabe badawín, cujo significado é “campesino, que vive no deserto”. “Beduíno” é também o título do novo filme de Julio Bressane, um dos diretores mais inventivos na história do cinema brasileiro. Nesta nova obra, o diretor pretende explorar de um modo bastante diferente os mais variados sentimentos humanos.


Através do casal Beduíno e Surm, Bressane quer dar corpo aos sentimentos, mas não da maneira mais usual, mais corriqueira. Neste filme, o diretor tenta fugir da representação dos sentimentos que são demonstrados mediante determinada situação de uma cena. Em outras palavras, como contraposição a uma narrativa naturalista em que se desenrolam as intrigas de um filme, “Beduíno” propõe ao espectador uma viagem através de seus personagens, sem que se precise de cenas armadas para que um sentimento seja deflagrado.


Assim, começamos com o encontro de Beduíno e Surm num deserto. Ele, vestindo o personagem que leva seu próprio nome; ela, como uma aeromoça perdida naquelas terras inabitáveis. Ambos parecem não se conhecer, até sermos catapultados para a sala de um apartamento a fim de que se perceba que o casal cria suas narrativas e viaja com elas. O que “Beduíno” nos sugere com essa estratégia é a de que a verdade e a realidade não passam de uma sucessão de fundos falsos. Em cada canto do apartamento, os personagens montam cenários e situações e assim narram sucessivamente tal qual a Sherazaade das Mil e uma noites. Narrar para viver, viver para narrar.


“Beduíno” não é um filme surrealista, dadaísta ou do realismo mágico, como explica o próprio diretor. É um filme que se inscreve na realidade, mas de um real que não é apenas factual. De um real que se sustenta também pelo que é imaginado. Decorre daí o que Bressane chamou de sala-metamorfose – a sala do apartamento de onde partem as viagens e a exploração dos sentimentos por meio das encenações propostas. A encenação de um batedor de carteiras – Beduíno como o ladrão e Surm como a vítima –, por exemplo, dá conta do sentimento de volúpia. Por sua vez, o ciúme é caracterizado pela encenação de uma guerra de trincheiras. Assim, pretende-se narrar metaforicamente: um fato encenado representando um sentimento humano.

 
© 2010 República Pureza Todos os direiros reservados.