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Um dia saberemos que não havia arte, mas somente medicina Michaux

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Entrar no texto de Clarice Lispector me exige perseguir a aventura de um imenso conjunto de sensações. Me exige muito mais, me exige viver a própria linguagem de Clarice Lispector. Estarei no romance, refletindo a criação de um espetáculo cinematográfico, buscando capturar o mergulho poético e vertiginoso que a personagem faz para dentro da alma humana. O filme A Paixão segundo G.H. é uma reação ao livro, mas que jamais nega sua fonte, sua inspiração literária; ao contrário, avizinha-se dela - porém, o mais cinematograficamente possível. Para isto é preciso um método: Estruturar o entendimento do texto de Clarice através de grandes sessões de improvisações e do jogo com o acaso e o inconsciente, privilegiando as vivências pessoais da intérprete que encarnará a personagem G.H. O texto de Clarice contém a idéia de que a realidade é composta de um tempo sagrado, mítico e espiritual, mas que tal dimensão permanece escondida por nossa percepção superficial do cotidiano. O cinema é uma travessia em busca de tornar o invisível visível: o invisível de cada um de nós que precisa ser recuperado e revelado a nós mesmos e ao mundo, à vida. Todo esse corpo de necessidades é o que dá sentido ao filme A Paixão segundo G.H.: a travessia. No mundo de hoje decreta-se diariamente a morte da imaginação, como se imaginar fosse o mesmo que agredir a realidade. Imaginar causa medo, pois é em si um ato de liberdade, de transgressão, de cidadania, ato perigoso. No filme A Paixão segundo G.H será extremamente difícil distinguir-se o Criador da Criação, a Atriz da Personagem, o Cinema da Vida.
Luiz Fernando Carvalho
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